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Xadrez se aproxima dos e-sports e luta contra o “doping virtual”

    Hikaru Nakamura, número 1 do mundo em blitz, foi contratado pela TSM — Foto: Divulgação / TSM

    O último grande evento de xadrez da temporada foi interrompido no meio. O Torneio de Candidatos, que define o desafiante do então campeão mundial, estava sendo realizado em Ekaterimburgo, na Rússia, em março, quando a Federação Internacional de Xadrez (Fide) decidiu suspendê-lo em meio ao fechamento de fronteiras como medidas de contenção ao novo coronavírus.

    Sem perspectivas de retomar as partidas presenciais, a solução foi se render ao digital. O site Chess.com, um dos maiores no ramo, registrou até o fim de novembro cerca de 13 milhões de novos usuários no ano, um aumento muito acima do habitual. As transmissões, com direito a narração e comentários, se multiplicaram nas plataformas de streaming, e os números de visualizações atraíram a atenção das empresas de e-sports.

    Em maio o americano Hikaru Nakamura, número 1 do mundo no ranking de blitz, modalidade rápida do xadrez, começou a receber sondagens diante do sucesso de suas transmissões no Twich. E, em agosto, foi anunciado pela gigante TSM.

    – Outros enxadristas também foram abordados. Isso é um grande sinal. Adoraria ver mais organizações envolvidas e criando uma liga de e-sports muito séria, com times de Grandes Mestres que jogam online numa atmosfera como a de League (of Legends) ou Valorant – disse o americano ao ge.

    Nakamura vê o online como uma porta única de conexão entre os maiores nomes do esporte e os fãs, com a oportunidade de responder a dúvidas e compartilhar o raciocínio por trás de cada movimentação no tabuleiro. Ele sabe que a postura não agrada ao mais “puristas”, jogadores mais tradicionais. Mas os ignora em prol do crescimento do esporte.

    – Há críticos que dizem que só estou fazendo isso por dinheiro, que estou arruinando o xadrez clássico tornando a blitz tão popular. Eu ignoro a maioria. Há quem diga que esses fãs não pertencem ao xadrez porque eram gamers primeiro. Essa toxicidade é ruim para todos os jogadores de xadrez. Preciso não responder diretamente, mas liderar pelo exemplo.

    Os tops mundiais não são os únicos a aproveitarem esse boom. Jogadores sem qualquer titulação da Fide mas com bom conhecimento do esporte e habilidades de comunicação e edição conquistaram um público fiel em sites como Youtube e Twich.

    Raffael Santos trabalha com manutenção eletrônica e tinha o xadrez como hobby quando decidiu criar o canal Raffael Chess, há dois anos. Hoje ele é um dos principais do Brasil, com quase 17 milhões de visualizações e com um fluxo crescente mês a mês.

    O combate ao “doping virtual”

    Proteger os jogadores profissionais de interferências externas é um dos grandes desafios para consolidar a popularidade do xadrez virtual com confiabilidade que permita a realização de grandes eventos. Isso porque há diferentes formas de trapacear jogando com auxílio da computação.

    – Diferentemente de um esporte físico, o xadrez é um dos únicos esportes que, com ajuda de uma trapaça qualquer, um iniciante consegue ganhar de um campeão mundial. No tênis, por exemplo, você pode ter todo o doping do mundo que um iniciante nunca vai ganhar do (Roger) Federer.

    – No xadrez há aplicativos grátis e de fácil acesso. É gritante – disse o Grande Mestre brasileiro Krikor Mekhitarian, Diretor de Conteúdo em português do site Chess.com e agora também jogador da equipe Fúria.

    Krikor afirma que as principais plataformas de jogos estão investindo pesado em segurança. Usam algoritmos e modelos estatísticos que identificam padrões comuns a quem está tentando fraudar o sistema, o que permite um banimento automático de mais de 70% das contas suspeitas.

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